Portugal, bem como toda a região Mediterrânica, enfrenta uma desflorestação sem precedentes e uma degradação dos solos causadas por incêndios recentes que consumiram milhares de hectares de floresta e plantações deixando os solos vulneráveis à erosão e à lixiviação de nutrientes. Este problema contribuiu para uma maior desertificação e desencadeou desequilíbrios ambientais que terão impactos significativos na agricultura, gestão florestal, qualidade dos reservatórios de água e, consequentemente, na sociedade. As crostas biológicas do solo (BSC) são comunidades complexas e especializadas de microrganismos que possuem várias funções ambientais cruciais, como a prevenção da erosão, a incorporação de carbono orgânico no solo e a retenção de água e nutrientes, apoiando o surgimento e crescimento de comunidades de maior complexidade, nomeadamente da fauna edáfica e das plantas vasculares. No estabelecimento das BSC as cianobactérias e microalgas são os pioneiros fotoautotróficos, que colonizam a camada superficial do solo, estabilizando e melhorando a sua composição e estrutura. A promoção/restabelecimento das BSC em solos degradados, nomeadamente através da aplicação de inóculos, tem um grande potencial na melhoria do solo e na qualidade dos ambientes circundantes deteriorados.
Este projeto visa desenvolver um sistema para a reabilitação rápida e controlada de solos queimados, através da aplicação de inóculos constituídos por produtores primários (cianobactérias e microalgas). Estes irão funcionar como espécies pioneiras e iniciar/acelerar a formação de crostas biológicas do solo, criando as condições para o estabelecimento das comunidades de plantas vasculares, entre outras. Para este fim:
(i) Serão isoladas cianobactérias e microalgas nativas de solos/crostas de solos de regiões próximas de áreas queimadas;
(ii) Estes microrganismos serão testados em experiências de microcosmos de modo a selecionar os que possuem características adequadas para o melhoramento de solos e para favorecer o crescimento de plantas;
(iii) Os microrganismos selecionados serão cultivados em larga escala (em colaboração com um parceiro industrial – A4F) para obter a biomassa necessária para experiências de campo;
(iv) Diferentes formulações (consórcios de microrganismos) e diferentes métodos de dispersão serão testados em áreas queimadas restritas (em colaboração com autoridades locais – Câmara Municipal de Mortágua);
(v) Após a inoculação dos solos serão avaliadas as suas propriedades, o restabelecimento da comunidade microbiana, e a recuperação fauna edáfica e da vegetação através da recolha de dados in situ e do processamento de dados de observação da Terra (obtidos por satélite ou drone).
O GreenRehab reúne uma equipa multidisciplinar constituída por especialistas em microbiologia molecular, solos, fisiologia vegetal e ecologia de diferentes unidades de investigação (i3S/IBMC, GreenUPorto/FCUP e CIBIO-InBIO) estabelecendo as sinergias necessárias para alcançar os objetivos finais: o desenvolvimento de um sistema para a reabilitação de solos queimados de baixo custo, ecológico e de fácil implementação e um protocolo de monitorização da recuperação do ecossistema após fogos. Este projeto constituirá o primeiro levantamento sistemático de cianobactérias e microalgas presentes nos solos portugueses e com certeza irá revelar uma enorme biodiversidade bem como o seu potencial. Além disso, esta abordagem contribuirá para implementar uma colaboração entre academia, indústria e autoridades locais de vital importância para o setor florestal português. Esta abordagem pode, no futuro, ser aplicada a outras áreas de Portugal e/ou a outras regiões europeias.